Ah, o nariz humano, essa parte do corpo que simboliza tanto a sobrevivência quanto a intuição. Pequeno, discreto, mas sempre presente — como a política fiscal do governo. Sim, porque se há algo que podemos comparar ao nariz, é a maneira como as medidas econômicas são sentidas: invisíveis para alguns, mas esmagadoras para outros.
“Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida” — exceto, claro, quando você é o nariz do contribuinte brasileiro, condenado a farejar o aroma acre de mais um arrocho fiscal. No último episódio de sua série interminável, o governo decidiu apertar ainda mais o lombo do povo, enquanto os discursos solenes de responsabilidade social se perdem em um nevoeiro de abstrações orçamentárias.
Vamos ser justos: o nariz, como o arrocho fiscal, é uma constante. Ele está sempre ali, guiando ou sendo guiado. Mas aí reside a diferença: enquanto o nariz nos permite respirar, o novo pacote de austeridade parece ter sido projetado para nos sufocar. Nada como uma boa dose de “faro” político para identificar onde cortar, não é mesmo? E, curiosamente, o faro do governo sempre aponta para o bolso do trabalhador.
Machado de Assis, esse cronista eterno da condição humana, talvez observasse com ironia o atual cenário. Afinal, em *O Alienista*, ele já nos mostrou como a razão pode ser levada ao absurdo, enquadrando a normalidade como loucura e tratando o exceção como regra. Não seria o arrocho fiscal, então, um experimento similar? A população é tratada como cobaia de soluções que parecem tão lógicas no papel quanto desumanas na prática.
E o que dizer da ponta do nariz do povo? Ela, que deveria apontar para um horizonte de esperança, agora só fareja o cheiro de desespero. Estamos todos obrigados a seguir o nariz de quem decide por nós, mesmo que o caminho seja ladeado por cortes em serviços essenciais e aumentos de impostos. E o mais curioso é que o discurso oficial sempre traz aquele toque de otimismo, como se nos pedissem para inspirar fundo e sentir o frescor de um futuro melhor — enquanto o presente fede a desfaçatez.
A ponta do nariz é pequena, mas simboliza muito. Ela nos lembra de que estamos vivos, mesmo quando mal conseguimos respirar. Ela representa a consciência, mas também a vulnerabilidade. E talvez seja isso que o governo conte ao anunciar medidas tão impopulares: a certeza de que, no fim, o povo sempre dá um jeito de sobreviver, mesmo com a respiração cortada.
Portanto, sigamos com nossos narizes erguidos — não por orgulho, mas para evitar que o cheiro do arrocho nos asfixie por completo. E quem sabe, um dia, possamos usar nosso faro coletivo para encontrar um caminho onde o peso do governo não seja tão opressor quanto as cifras que ele insiste em ajustar.