sábado, 30 de novembro de 2024

A Ponta do Nariz e o Arrocho Fiscal



Ah, o nariz humano, essa parte do corpo que simboliza tanto a sobrevivência quanto a intuição. Pequeno, discreto, mas sempre presente — como a política fiscal do governo. Sim, porque se há algo que podemos comparar ao nariz, é a maneira como as medidas econômicas são sentidas: invisíveis para alguns, mas esmagadoras para outros.


“Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida” — exceto, claro, quando você é o nariz do contribuinte brasileiro, condenado a farejar o aroma acre de mais um arrocho fiscal. No último episódio de sua série interminável, o governo decidiu apertar ainda mais o lombo do povo, enquanto os discursos solenes de responsabilidade social se perdem em um nevoeiro de abstrações orçamentárias.


Vamos ser justos: o nariz, como o arrocho fiscal, é uma constante. Ele está sempre ali, guiando ou sendo guiado. Mas aí reside a diferença: enquanto o nariz nos permite respirar, o novo pacote de austeridade parece ter sido projetado para nos sufocar. Nada como uma boa dose de “faro” político para identificar onde cortar, não é mesmo? E, curiosamente, o faro do governo sempre aponta para o bolso do trabalhador.


Machado de Assis, esse cronista eterno da condição humana, talvez observasse com ironia o atual cenário. Afinal, em *O Alienista*, ele já nos mostrou como a razão pode ser levada ao absurdo, enquadrando a normalidade como loucura e tratando o exceção como regra. Não seria o arrocho fiscal, então, um experimento similar? A população é tratada como cobaia de soluções que parecem tão lógicas no papel quanto desumanas na prática.


E o que dizer da ponta do nariz do povo? Ela, que deveria apontar para um horizonte de esperança, agora só fareja o cheiro de desespero. Estamos todos obrigados a seguir o nariz de quem decide por nós, mesmo que o caminho seja ladeado por cortes em serviços essenciais e aumentos de impostos. E o mais curioso é que o discurso oficial sempre traz aquele toque de otimismo, como se nos pedissem para inspirar fundo e sentir o frescor de um futuro melhor — enquanto o presente fede a desfaçatez.


A ponta do nariz é pequena, mas simboliza muito. Ela nos lembra de que estamos vivos, mesmo quando mal conseguimos respirar. Ela representa a consciência, mas também a vulnerabilidade. E talvez seja isso que o governo conte ao anunciar medidas tão impopulares: a certeza de que, no fim, o povo sempre dá um jeito de sobreviver, mesmo com a respiração cortada.


Portanto, sigamos com nossos narizes erguidos — não por orgulho, mas para evitar que o cheiro do arrocho nos asfixie por completo. E quem sabe, um dia, possamos usar nosso faro coletivo para encontrar um caminho onde o peso do governo não seja tão opressor quanto as cifras que ele insiste em ajustar.











Reflexões Monísticas sobre Geografia e outros temas, do professor Caio Lóssio Botelho

 Olhei para a minha pequena e tímida biblioteca, com suas prateleiras que abrigam tesouros esparsos, e, em meio a uma busca por algo que me inspirasse, encontrei o livro *Reflexões Monísticas sobre Geografia e Outros Temas*, do professor Caio Lóssio Botelho. Um suspiro de surpresa passou por mim. Era como se aquele volume, perdido entre outras obras que coleciono ao longo dos anos, tivesse me encontrado justamente naquele momento. Fiquei pensando: por que nunca tratamos desse texto na UECE, enquanto estive lá como aluno entre 2008 e 2018?


O livro do professor Caio Lóssio Botelho, com seu olhar perspicaz e profundo sobre a geografia, sempre me causou uma certa admiração. No entanto, em meio a tantas leituras obrigatórias e discussões intensas sobre teorias e conceitos que, por vezes, pareciam estar mais distantes da prática do que eu gostaria, a obra do mestre acabou sendo, em certa medida, negligenciada. Talvez, por falta de tempo, ou talvez por uma certa pressa em querer absorver as ideias que a academia impunha como essenciais.


Relembrando aqueles anos de imersão na geografia da UECE, vejo hoje que faltou um aprofundamento naquilo que o professor Caio Lóssio propunha. Seu pensamento, que dialogava com o contexto local e global, tinha um potencial imenso de expandir nossas reflexões sobre o papel da geografia no mundo contemporâneo. É certo que, na universidade, nos deparávamos com grandes nomes da geografia, com autores consagrados que, de alguma forma, definiram os rumos da disciplina. Mas eu me pergunto se fomos capazes de enxergar a riqueza e a relevância do que estava diante de nossos olhos, em um autor que falava de forma crítica e, ao mesmo tempo, poética, sobre o espaço e suas implicações.


Hoje, com uma perspectiva mais amadurecida, vejo como o pensamento do professor Caio Lóssio poderia ter enriquecido nossas discussões sobre temas como as mudanças climáticas, as desigualdades socioespaciais e as novas tecnologias. Ele trazia uma abordagem que ia além do tradicional, que refletia sobre a geografia como uma ferramenta para compreender e transformar a realidade. Em tempos em que a geografia se depara com desafios como a urgência de uma sustentabilidade real e uma adaptação à era digital, os textos do professor Botelho poderiam ser uma fonte de inspiração e orientação.


Por que não tratamos desse texto? Será que a academia ainda tem dificuldades em reconhecer e abraçar autores que, de alguma forma, não estão no circuito das grandes editoras e dos grandes nomes internacionais? É hora de refletir sobre isso e de fazer mais do que apenas revisitar obras conhecidas. É preciso explorar o que está ao nosso redor, nas prateleiras pequenas e nos autores que, com suas ideias locais, podem enriquecer nossa compreensão do mundo.


Hoje, quando olho para o livro *Reflexões Monísticas sobre Geografia e Outros Temas*, do professor Caio Lóssio Botelho, sinto que ele me traz uma lição de revisitação, de reconhecimento do que é valoroso e de um convite a olhar para a nossa própria trajetória com um olhar renovado. Talvez, assim, possamos finalmente trazer à tona a riqueza de autores que ajudaram a moldar a nossa geografia, mas que, por alguma razão, acabaram sendo esquecidos no caminho.


#Geografia.
Botelho, Caio Lóssio
#Reflexões monísticas sobre geografia e outros temas / UFC, 1996

#caiolossiobotelho


 Seja como um seixo que rola


Ao longo da vida, somos constantemente desafiados pelas circunstâncias. Assim como os rios que esculpem os seixos, as experiências que enfrentamos nos moldam, polindo nossas arestas e fortalecendo nossa essência. 


O seixo não escolhe o fluxo da água, nem as pedras que encontra pelo caminho. Ele simplesmente segue, rolando e adaptando-se ao percurso. Em cada impacto, perde um pouco de suas bordas afiadas, tornando-se mais suave, mais fluido, mais preparado para o próximo desafio. Aí reside a beleza da resiliência: aprender a fluir em vez de resistir ao inevitável.


Ser como um seixo que rola é abraçar o movimento constante. É aceitar que a vida não é estática, mas um fluxo interminável de mudanças. Significa desapegar-se do passado, soltar o peso do que já não cabe e permitir que a correnteza nos leve a novos horizontes.


Ao mesmo tempo, o seixo guarda algo de si mesmo. Ele não se desintegra; apenas se transforma. Podemos aprender com isso. Nossos valores, paixões e crenças são o núcleo que permanece intacto, enquanto tudo o mais é refinado pelo tempo e pelas experiências.


Adotar essa postura também significa confiar no processo. Nem sempre sabemos para onde o rio nos levará, mas podemos ter certeza de que ele nos moldará para sermos mais fortes, mais equilibrados e mais preparados para o que vier.


### Reflexões Práticas

1. **Aceite o fluxo:** Em vez de lutar contra situações inevitáveis, procure entender o que elas podem ensinar. Como você pode se adaptar e crescer a partir delas?


2. **Desapegue-se do passado:** Assim como o seixo perde pedaços de si para se tornar mais suave, permita-se deixar para trás o que não serve mais à sua jornada.


3. **Preserve sua essência:** Por mais que as circunstâncias mudem, mantenha-se fiel ao que é mais importante para você: seus valores e princípios.


4. **Confie no processo:** Nem sempre o destino é claro, mas cada experiência contribui para o seu crescimento. 


Como o seixo que rola, viva em movimento, permitindo-se ser recriado, lapidado e, acima de tudo, fluido. Afinal, é no rolar que encontramos nosso caminho.

@Luciano de Paula Filho

@(30) Territórios em Ciclo - YouTube 

O Ciclo de Austeridade Fiscal no Ceará: Encerramento ou Transição?

 O Ciclo de Austeridade Fiscal no Ceará: Encerramento ou Transição?


O Estado do Ceará construiu, ao longo das últimas décadas, uma reputação de responsabilidade fiscal que o destacou no cenário nacional. Esse compromisso teve início em 1989, com a posse do governador Tasso Jereissati em seu primeiro mandato (1989-1991). Esse período marcou uma ruptura com práticas fiscais desordenadas do passado e introduziu reformas estruturais para equilibrar as contas públicas e modernizar a administração estadual. Na sequência, durante o governo de Ciro Gomes (1991-1994), as políticas de austeridade foram aprofundadas, consolidando um modelo de gestão que priorizava a eficiência no uso dos recursos e a atração de investimentos privados.


O marco mais significativo, porém, veio em 1995, com o retorno de Tasso Jereissati ao governo. Sob sua gestão (1995-2002), foi implementada uma política de austeridade fiscal ainda mais rigorosa, caracterizada por um controle estrito de despesas, incremento na arrecadação e foco em investimentos estratégicos. Essas medidas permitiram ao estado manter equilíbrio fiscal mesmo em tempos de crise e criaram as bases para um ciclo de desenvolvimento sustentado.


Essa herança foi consolidada nas gestões subsequentes de Lúcio Alcântara (2003-2006), Cid Gomes (2007-2014) e até a metade do segundo governo de Camilo Santana (2015-2020). Durante esse período, o Ceará não apenas equilibrou suas contas, mas também conquistou reconhecimento nacional, recebendo por vários anos a nota máxima em capacidade de pagamento (Capag) pela Secretaria do Tesouro Nacional. Segundo dados da Secretaria da Fazenda do Ceará (SEFAZ-CE), o estado conseguiu manter a relação entre dívida consolidada líquida e receita corrente líquida abaixo de 60%, muito aquém do limite de 200% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Essa disciplina fiscal foi fundamental para viabilizar projetos de infraestrutura, educação e desenvolvimento social, além de assegurar financiamentos internacionais para obras estruturantes.


 Sinais de Deterioração


Entretanto, os últimos anos revelaram sinais de pressão crescente sobre as contas públicas cearenses. A gestão da metade final do segundo governo de Camilo Santada (2020-2021) de Izolda Cela (2022) e a administração atual de Elmano de Freitas (2023) enfrentaram desafios que culminaram em um déficit orçamentário de aproximadamente R$ 2,5 bilhões em 2023, segundo relatórios da SEFAZ-CE. Esse cenário, atípico na recente trajetória do estado, pode ser explicado por uma combinação de fatores:


1. Aumento de Despesas Obrigatórias: Os gastos com folha de pagamento e previdência cresceram substancialmente, comprimindo a capacidade do estado de investir em áreas prioritárias. Apenas as despesas previdenciárias ultrapassaram R$ 5 bilhões em 2023.


2. Impactos da Pandemia de COVID-19 (2020-2022): Sob a gestão de Camilo Santana, o estado direcionou mais de R$ 4 bilhões para a saúde e a assistência social, além de enfrentar perdas na arrecadação tributária.


3. Mudanças na Política Nacional de ICMS: A implementação de um teto para combustíveis, energia e telecomunicações, em 2022, reduziu em cerca de R$ 1,2 bilhão a arrecadação estadual, segundo estimativas do Ministério da Fazenda.


4. Crescimento Moderado da Economia: Apesar dos avanços em políticas de desenvolvimento regional, o Ceará ainda enfrenta desafios para atrair grandes investimentos privados que ampliem sua base de receitas.


5. Demandas Sociais Crescentes: A população pressiona por mais investimentos em saúde, educação, segurança e infraestrutura, colocando o governo diante do dilema de atender às demandas sem comprometer a sustentabilidade fiscal.


Um Novo Modelo de Gestão Fiscal?


Diante desse cenário, surge a questão: o ciclo de austeridade fiscal no Ceará chegou ao fim ou está passando por uma transição para um modelo mais flexível? O que parece estar em curso é uma tentativa de equilibrar a responsabilidade fiscal, que sempre foi um marco da gestão cearense, com a necessidade de responder às demandas sociais e econômicas de uma população em crescimento.


Essa transição exige políticas públicas bem calibradas, que possam:


- Reestruturar Despesas: Por meio da modernização administrativa e previdenciária, reduzindo o peso das despesas obrigatórias sobre o orçamento.

- Aumentar a Eficiência Arrecadatória: Combatendo a evasão fiscal e ampliando a base de contribuintes sem onerar excessivamente setores produtivos.

- Estimular Investimentos Privados: Fortalecendo Parcerias Público-Privadas (PPPs) e criando um ambiente favorável à inovação e ao empreendedorismo.

- Planejar a Longo Prazo: Implementando um planejamento orçamentário que contemple o equilíbrio entre responsabilidade fiscal e atendimento às demandas sociais.


 Reflexões Finais


O Ceará, que por décadas foi um exemplo de gestão fiscal responsável no Brasil, encontra-se agora em um momento decisivo. O desafio é manter o compromisso com o equilíbrio fiscal enquanto responde às novas exigências de uma sociedade em transformação. O sucesso dessa empreitada dependerá da capacidade do governo de implementar reformas estruturantes e inovar na captação de recursos, preservando o legado de austeridade que tanto contribuiu para o desenvolvimento do estado.




sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Não tente, Faça: Uma reflexão sobre a Ação autêntica

 

Não tente, Faça: Uma reflexão sobre a Ação autêntica

Introdução

“Não tente. Faça.” Estas palavras, embora breves, contêm uma verdade profunda sobre a condição humana. Vivemos em uma era onde a tentativa é amplamente celebrada como parte do processo de aprendizado, mas isso muitas vezes nos leva à hesitação, à incerteza e à comodidade do não comprometimento. Fazer, ao contrário, é uma escolha radical, um ato que exige entrega total e aceitação das consequências, sejam elas de sucesso ou de fracasso. Neste ensaio, exploraremos as nuances dessa distinção, refletindo sobre o que significa realmente agir.


O Peso da Hesitação

Tentar é, por vezes, sinônimo de adiar. Quando dizemos que estamos “tentando”, frequentemente criamos um espaço mental que nos protege da responsabilidade plena de agir. Essa hesitação pode ser fruto de um medo profundo: o medo do fracasso. Mas o fracasso, quando aceito como parte do processo, é também um meio de crescimento. Assim, o ato de tentar é muitas vezes uma barreira que colocamos entre nós e aquilo que queremos realizar. Ele se torna um conforto ilusório que, paradoxalmente, nos prende.

Os estoicos, como Séneca, frequentemente lembravam que a vida é breve e que o maior erro é gastar tempo em ocupações que não levam a lugar algum. Nesse sentido, a hesitação é também uma forma de desperdício do bem mais precioso que temos: o tempo.


A Coragem de Agir

Fazer é, acima de tudo, um ato de coragem. Exige de nós uma disposição para lidar com a incerteza e um compromisso com nossos valores e objetivos. Quando agimos, nos colocamos em uma posição vulnerável, pois estamos sujeitos à crítica, ao erro e à imprevisibilidade. No entanto, é justamente nessa vulnerabilidade que reside a força da ação.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em suas reflexões sobre a fé e o comprometimento, argumentava que o salto no desconhecido é um ato necessário para viver plenamente. A coragem de agir, nesse sentido, não é apenas funcional, mas também existencial. Ela nos conecta com a essência de quem somos e com aquilo que podemos nos tornar.


A Ilusão do Controle

Ao tentarmos, frequentemente nos apegamos à ideia de que temos controle sobre os resultados. Esse controle, no entanto, é em grande parte ilusório. A vida é imprevisível, e o apego excessivo ao controle pode nos paralisar. Fazer é abrir mão dessa ilusão e abraçar o caos, reconhecendo que a incerteza é parte integrante da experiência humana.

Há uma sabedoria profunda na aceitação da imprevisibilidade. Ela nos ensina a ser resilientes e a encontrar oportunidades mesmo nas situações mais adversas. Ao agir, nos colocamos em movimento, e é nesse movimento que a vida acontece.


Fazer Como Princípio Ético e Estético

“Faça” é também uma afirmação ética e estética. Na filosofia de Friedrich Nietzsche, por exemplo, a criação é um ato supremo. O criador é aquele que supera o niilismo e molda o mundo de acordo com seus valores. Nesse contexto, fazer não é apenas agir, mas criar algo significativo, algo que reflete nossa singularidade e contribui para a totalidade da experiência humana.

Esteticamente, a ação autêntica tem um apelo próprio. Ela é bela porque é verdadeira, porque expressa a essência do ser. Quando fazemos algo com intencionalidade e dedicação, não apenas realizamos um ato funcional, mas também criamos algo que transcende o utilitário.


Conclusão

“Não tente. Faça.” é um convite à vida autêntica. Cada momento de hesitação é uma oportunidade perdida, enquanto cada ato de fazer é um passo em direção à realização do nosso potencial. Ao abraçar a ação, transcendemos o medo, a hesitação e a ilusão do controle, e nos tornamos co-criadores do nosso destino. Fazer é viver, e viver é ação em sua forma mais pura.



Estuda, menino: uma travessia pelas universidades públicas do Ceará

“Fala-me, Musa, do homem astuto que muito errou, depois que destruiu a sagrada cidadela de Troia; de muitos homens viu as cidades e conhec...