sexta-feira, 11 de abril de 2025

As multidões que nos habita

 



"Da multidão à unidade: A Jornada de Reintegração à plenitude da alma"

Vivemos fragmentados. Em nós habitam vozes, impulsos, lembranças, medos, desejos, paixões, traumas — e muitas vezes, todos falam ao mesmo tempo. Somos a casa onde mora uma multidão, como afirmou Whitman e reafirmou Dylan. Mas essa multidão, por mais poética que seja, é também causa de tormento, confusão, perda de centro.

No Evangelho, há um homem tomado por essa multiplicidade: o gadareno. Ele vive nos sepulcros, nu, alienado, violento. Sua identidade já não é uma — é legião. E é quando Cristo chega, com Sua Presença Una, indivisa, sem oscilação, que a legião se desintegra. A multidão que habitava o homem é lançada fora. E só então ele pode ser descrito como “vestido e em perfeito juízo”.

Há algo sublime nisso: para haver paz verdadeira, é necessário haver unidade interior. E essa unidade só é possível quando nos tornamos semelhantes a Cristo — não no sentido doutrinário apenas, mas no sentido ontológico: um ser centrado, inteiro, pleno em si.

Cristo é “um só”, não dividido. Mesmo nas maiores pressões (no deserto, no Getsêmani, na cruz), Ele não oscila, não se fragmenta. Ele não tem “muitos humores”, mas uma única direção: a vontade do Pai. Há aí uma profundidade que desafia nossa modernidade emocionalmente instável e identitariamente difusa.

Dylan, ao dizer “I contain multitudes”, se posiciona no caos poético da alma humana. É verdadeiro — mas é também a constatação de um estado de exílio. Cristo, ao contrário, é a morada restaurada. O Templo reerguido. Ele não é múltiplo, é inteiro.

Assim, se queremos "ver e entrar" na próxima fase — seja ela espiritual, evolutiva, ou simplesmente mais plena e lúcida — precisamos expulsar a legião interna. E não o faremos apenas pela vontade racional, mas pela presença do Uno dentro de nós. E esse Uno é o Cristo.

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