“Fala-me, Musa, do homem astuto que muito errou,
depois que destruiu a sagrada cidadela de Troia;
de muitos homens viu as cidades e conheceu os costumes,
e padeceu no mar inúmeros sofrimentos no ânimo,
lutando por sua vida e pelo regresso dos companheiros.”
(Odisseia, Canto I)
Quando eu tinha 16, 17 anos, no auge daquela fase em que o futuro parece um país estrangeiro, a universidade pública era o mapa do tesouro que encantava a imaginação dos mais talentosos e estudiosos filhos das classes trabalhadoras. Estou falando de 2004, 2005 — um Brasil ainda não tão corroído pelo cinismo, onde o vestibular era um rito de passagem, um desafio temido, mas também um horizonte de possibilidades.
Lembro perfeitamente quando passei na primeira fase do antigo vestibular da UFC. Foi como se tivesse atravessado uma porta invisível, dessas que só quem vive entende. Peguei uma carona com aquele "amigo" rico da família — a quem minha mãe agradecia como quem agradece um favor inalcançável — Cheguei à capital do estado e entrei em um cursinho mediano, desses que garantem ter a chave e a fórmula mágica para superar mais uma etapa - a segunda fase do vestibular da UFC. Foi ali que, pela primeira vez, me senti "especial", como se tivesse entrado em outro mundo, onde inteligência e esforço eram o passaporte. Era um orgulho silencioso, quase um segredo: minha família mal sabia o que estava acontecendo e não conseguia entender a dimensão daquilo.
Fracassei no vestibular da UFC e não consegui passar. Porém, ingressei na Universidade Estadual do Ceará, o que já era uma grande conquista para alguém vindo do interior. A UECE me acolheu como quem dá abrigo a um andarilho sem rumo, e me agarrei a essa oportunidade com todas as forças. Lá eu tinha quase tudo: um lugar para ir, uma identidade (com minha carteira de estudante universitário, que carregava com orgulho), além de lanche, almoço e jantar. Foi lá que conheci o professor Luiz Cruz, a primeira pessoa que eu encontrei que já havia concluído um doutorado. Até então, essa palavra era apenas uma ideia distante, algo de livros e filmes. Descobri, naquele momento, que ser professor doutor era quase como pertencer a uma casta social, uma distinção. Sempre ouvi relatos de que, após a defesa, "vamos tomar umas, mas só vão os doutores" – uma posição de prestígio silencioso e, até certo ponto, inalcançável. Ninguém na minha família jamais havia pisado em uma universidade, e eu, até então, nunca tinha sequer andado de avião.
O tempo foi passando, e fui me envolvendo cada vez mais na estrutura da Universidade: comecei como bolsista de Iniciação Científica, depois me tornei aluno de mestrado, doutorado… e, com isso, a carga horária foi aumentando até chegar a 14 horas diárias, sem finais de semana, sem feriados, com pouco ou nenhum descanso. E assim continua.
Por muitos anos, a universidade foi o meu espaço de redenção e ascensão. Mas, hoje, vejo com pesar que a realidade mudou. A reputação das universidades públicas brasileiras nunca esteve tão deteriorada. A culpa, claro, não é apenas do pânico moral alimentado pela extrema direita — embora ele seja real e violento. Há, também, um processo interno, mais sutil e corrosivo: o aparelhamento político por parte das militâncias organizadas da esquerda identitária. Isso, aos poucos, vem corroendo a institucionalidade, transformando a universidade num espaço cada vez mais pautado pela lógica performática e menos pela busca da excelência acadêmica.
Vejo concursos públicos com uma vaga apenas, não contratando sequer os aprovados em primeiro lugar. E o processo é, no mínimo, estranho, marcado por critérios que relativizam o desempenho acadêmico em nome da promoção da diversidade.
Não me interpretem mal: sei da importância da diversidade, sobretudo para quem, como eu, atravessou a desigualdade na pele. Mas a universidade parece ter deixado de priorizar a formação de excelência, abdicando da sua função primordial para atuar como um grande centro de assistência social, assumindo responsabilidades que, embora importantes, não são constitutivas do seu papel.
Qualquer um que manifeste discordância é tratado como fascista e perseguido por uma perversa máquina de destruição moral e reputacional. O professor Nildo Ouriques, mais uma vez, está certo: a performance dos ativismos identitários sugere, sim, que a universidade se transformou num feudo ideológico, onde a divergência virou heresia.
O mais trágico de tudo é perceber que a extrema direita, tão voraz em outros campos, aqui não precisa sequer ter o trabalho de mentir. A degradação é visível, concreta, sentida no cotidiano.
E, enquanto isso, nós, os de sempre, seguimos: aulas, pesquisa, orientações, prazos, relatórios, seminários. A missão persiste, mas a esperança, confesso, tem raleado.
Este ensaio não é um ajuste de contas, mas uma confissão de quem acreditou — e ainda acredita — que a universidade pública é uma das maiores conquistas da democracia brasileira. Porém, é preciso coragem para olhar para ela como ela é hoje: uma instituição em crise, não apenas por ataques externos, mas também por escolhas internas.
A minha travessia pelas universidades públicas do Ceará é marcada por essa ambivalência: gratidão e crítica, esperança e desencanto, construção e ruína.
E sigo. Porque estudei, menino, e hoje tentando ser homem.
Ainda acredito na universidade pública como um espaço imprescindível, como o último reduto possível de uma formação que não se rende inteiramente ao mercado, nem às redes sociais, nem ao obscurantismo. Mas confesso: a crença agora é menos ingênua, mais tensa, mais desconfiada.
Os corredores que antes me pareciam infindáveis, plenos de possibilidades, hoje muitas vezes ecoam vazios, ou cheios de discursos que não mais dialogam com a realidade concreta dos que, como eu, chegaram ali à custa de muita renúncia.
Por vezes me pergunto — e não sou o único: será que a saída é mesmo o aeroporto? Será que o destino de quem busca excelência, rigor, e uma vida acadêmica honesta é, inevitavelmente, o exílio?
A ideia me assombra, mas ainda resisto a ela.
Talvez porque, no fundo, sigo acreditando que ainda há espaço para quem trabalha 3X, para quem não se curva à máquina nem à vaidade, para quem não vê a universidade como trincheira, mas como ponte.
O tempo dirá.
Enquanto isso, continuo fazendo o que sempre fiz: estudando, trabalhando, e acreditando — ainda que com menos fervor, mas com mais lucidez.
