quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Cercados!

 Num canto qualquer do mundo, amontoam-se os homens, como galinhas no poleiro, cercados por grades invisíveis que chamam de sistema. Não enxergam as barreiras porque lhes foram ensinadas como necessárias, parte de um pacto milenar que ninguém se lembra de ter assinado.

Acordam ao som de despertadores, máquinas que gritam a hora de trabalhar, e correm, atropelando os próprios desejos. No trajeto, movem-se como um rio espesso, uniforme, cada gota crente de que segue seu próprio curso.

Dentro das grandes jaulas de vidro e concreto, empenham-se em tarefas que não entendem plenamente, convencidos de que, ao fim de tudo, haverá recompensa. Mas a promessa é tão distante quanto o horizonte: sempre visível, nunca alcançável.

À noite, exaustos, voltam para os ninhos empilhados, chamando-os de lar. Ali, encontram refúgio breve, enquanto os pensamentos os chicoteiam. "Por que não sou livre? Por que não rompo o ciclo?" Mas logo a razão responde: "E os outros? Também não estão todos assim?"

E como um coro de galinhas que cacarejam, ninguém questiona o porquê do cercado. Apenas continuam, picando as migalhas jogadas por mãos invisíveis, distraindo-se com pequenas lutas, enquanto o dono do galinheiro lucra com seus ovos.

Um dia, alguém quebra a regra. Salta sobre a cerca, ainda que à custa das penas, e corre, sentindo pela primeira vez o vento sem barreiras. Mas os outros, ao invés de segui-lo, cacarejam alarmados: "Que tolo! Não sabe que o cercado nos protege?"

E assim, o mundo continua: uma imensa granja de homens, orgulhosos de seus poleiros.

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