Era fim de tarde no sertão, e a estrada de terra diante de mim parecia não ter fim. A poeira avermelhada subia em pequenas nuvens a cada passo, colando-se ao suor que escorria pela minha pele. Caminhava sozinho, mas, em verdade, não estava só. Carregava comigo as vozes de uma criança oprimida, ecoando lá do fundo do meu ser. Elas eram pesadas, como sombras que não desaparecem nem sob o sol mais forte.
Foi então que a avistei: uma cruz solitária, fincada na beira da estrada. Feita de madeira tosca, parecia ter resistido às chuvas e às secas, ao tempo e ao abandono. Ao seu pé, um vaso simples, com flores que haviam murchado, e uma pequena poça d’água, quase seca, refletindo os últimos raios do dia.
Aproximei-me devagar, como se temesse interromper um diálogo invisível entre o céu e a terra. Ali, diante daquela cruz, algo em mim começou a ceder. Sentei-me na poeira, deixando o peso das lembranças me atingir por completo. Eu via minha própria infância: a criança que tentava crescer em um mundo que lhe cortava as asas antes mesmo que pudesse sonhar voar. A criança que acreditava não ser suficiente, que se mirava no espelho e encontrava só as falhas que outros apontavam.
Mas agora eu estava ali. O adulto que trilhou quilômetros para chegar àquela estrada poeirenta. Um adulto que sabia que carregar o passado era como tentar cruzar o sertão levando pedras nos bolsos. Era hora de deixar algo para trás.
Ajoelhei-me diante da cruz. Não era apenas um gesto de oração, mas de entrega. Comecei a sepultar meu antigo eu ali mesmo, naquela terra seca e sagrada. Enterrei o medo que me paralisava, a tristeza que me consumia, as vozes que me diminuíam. Cada uma delas, eu as visualizei como pequenas sementes negras que, ao serem enterradas, poderiam se transformar em algo novo.
“Renasça da água e do espírito”, sussurrei. Essas palavras vieram não sei de onde, mas se tornaram meu mantra. A pequena poça d’água ao pé da cruz refletiu meu rosto, mas não era o mesmo rosto de antes. Era como se, aos poucos, eu pudesse ver algo mais. Uma fagulha de quem eu poderia ser: confiante, pleno, vivo.
Levantei-me com o coração mais leve. O sol já mergulhava no horizonte, tingindo o céu com cores que pareciam uma despedida e uma promessa ao mesmo tempo. Olhei para a cruz uma última vez, agora como um marco de onde eu havia deixado o que não me servia mais. E segui em frente.
A estrada ainda era longa, mas meus passos tinham outro ritmo. Eu não caminhava mais sozinho. Carregava comigo a esperança, a convicção de que é possível renascer. O antigo eu havia ficado para trás, e o novo eu, forjado na água, no espírito e no fogo do sertão, estava apenas começando a caminhar.
Luciano Filho
Fortaleza, 21 de dezemnro de 2024

Nenhum comentário:
Postar um comentário