domingo, 1 de dezembro de 2024

Machado de Assis, Brás Cubas, e a ponta do nariz: consciência sem remorsos!

 

A Ponta do nariz: consciência sem remorsos


Há algo singular no nariz humano: ele é a sentinela silenciosa do rosto, a projeção que mais frequentemente se coloca à frente da pessoa, quase como uma bandeira de identidade. E na ponta do nariz, tão pequena e tão à mostra, pode residir um vasto simbolismo. "Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida." Esta frase evoca uma reflexão tanto literal quanto metafórica sobre o papel do nariz — e do que ele pode representar em nossa caminhada.


No plano literal, o nariz é instrumento de sobrevivência. Respirar, distinguir aromas, evitar o perigo do que é insalubre — são funções que ele cumpre sem grande alarde. Contudo, também é um elemento de percepção que ultrapassa o biológico: quantas memórias não são evocadas por um perfume? Quantas vezes não somos guiados por aquele inexplicável "faro" que nos alerta sobre situações ou pessoas?


Mas há também a dimensão metafórica. A ponta do nariz é um lembrete constante de nossa presença no mundo, um ponto de referência que vemos sem realmente observar. Ela é um marco silencioso, que acompanha nosso olhar para todos os lados, como um fiel escudeiro. Seria exagero dizer que ali mora a consciência sem remorsos? Talvez não.


Consciência sem remorsos sugere uma clareza interior, um estado de ser que é ao mesmo tempo transparente e honesto. Ela não se tortura com o passado nem teme o futuro; vive o presente com plenitude. O nariz, com sua função ininterrupta de respiração, nos conecta ao momento presente de forma visceral. A cada inspiração, afirmamos: “Estou aqui, vivo, consciente.”


E como ele nos vale na vida! Em um mundo onde tantas coisas podem ser disfarçadas ou distorcidas, o nariz muitas vezes é franco, apontando para a direção que tomamos. Frases como “faro para negócios” ou “seguir o próprio nariz” revelam como essa parte do corpo é associada à intuição, ao instinto e à capacidade de se orientar.


Por outro lado, é também vulnerável. Basta uma pancada ou uma agressão verbal para que o nariz — literal ou simbolicamente — sangre. Essa dualidade o torna ainda mais humano: forte e frágil, guiando e, ao mesmo tempo, sendo guiado por nossas escolhas e experiências.


Portanto, quando afirmamos que o nariz valeu muito na vida, talvez estejamos reconhecendo sua contribuição silenciosa, mas essencial. Ele é mais do que uma parte do corpo; é uma extensão de nossa percepção do mundo, uma síntese da consciência e da presença. E na ponta do nariz, tão pequena e à mostra, reside a sabedoria de que estar vivo, atento e sem remorsos é, em si, um grande feito. Nesse contexto, o grande Machado de Assis nunca foi tão atual e necessário, com sua habilidade singular de explorar a natureza humana e suas nuances. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele reflete sobre a vaidade e a condição humana, enquanto em O Alienista, o "nariz" é citado para criticar os absurdos da sociedade e de suas convenções.

Assim, ergamos nossos narizes com orgulho, não em sinal de soberba, mas em reconhecimento ao que eles representam: a capacidade de sentir, intuir e navegar pelo mundo com clareza e coragem.


Memórias póstumas de Brás Cubas (1881).

Nota: Adaptação de trecho do livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas".




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